A RESTAURAÇÃO DA NARRATIVA

Luis Alberto de Abreu (trechos do texto escrito)

Não existe experiência coletiva. Existem acontecimentos, fatos coletivos,

é de fundamental importância que toda experiência humana significativa possa ser comunicada tendo em vista a criação de um repertório comum de experiências, material básico para o desenvolvimento de uma consciência coletiva. E consciência coletiva é o que plasma o surgimento de um destino comum. E destino comum é o que orienta e dá forma ao que chamamos de comunidade, cidadania ou nação.

…Essa transmissão de experiências individuais para a esfera coletiva dá forma ao que chamamos “imaginário”.Um imaginário – repertório de imagens comuns a uma cultura e, em decorrência, de histórias, tipos, crenças, conceitos e comportamentos – é necessariamente uma criação coletiva.

Enquanto os heróis trágicos chegam ao mundo como “heróis de cultura”, personagens que vão transformar o mundo, derrogar velhas leis e trazer novas, lutar decididamente contra a herança e imagens dos pais e das tradições do clã ou da sociedade, o enfraquecido herói melodramático sucumbe a um mundo que desconhece e a leis morais e regras sociais que não consegue mudar. O mundo é algo misterioso e assustador, um “sistema” indecifrável,

…Ao perder o contato com a praça, com as ruas, com a comunidade, enfim, o homem perde seu imaginário, abandona a fonte de sua cultura e diminuem-se consideravelmente a quantidade e a qualidade das experiências que podem ser comunicadas. Seu repertório de imagens, sem o acréscimo das imagens apreendidas no contato e conflito com outros homens, reduz-se àquelas geradas apenas a partir de si próprio (os sentimentos) e advindas no contato e conflito com seu reduzido meio familiar e círculo social (moral). Os próprios sentimentos sem o sadio conflito com a complexidade do mundo real tendem a permanecer na superfície ou a se tornar idealizados. Ao abandonar as ruas o homem diminui substancialmente sua capacidade de aprender. O saber distancia-se do sentir.

…É bem característico que nossa época tenha especial predileção pelo melodrama. É um gênero que retrata fielmente a perplexidade da maioria de nós com um mundo que não mais conhecemos. Um mundo complexo, vil, caótico, violento e inimigo…

…Desde que comecei minha carreira profissional como dramaturgo, há vinte anos, ouço falar em crise. Hoje me pergunto se é possível fazer arte em qualquer lugar do mundo sem crise. Isso não quer dizer que tenha me habituado a ela, mas que a considero elemento fundamental do processo criativo, situada no mesmo nível de importância da observação, da reflexão, da atenção ou da intuição. A crise norteia e nos faz mais espertos.

É interessante verificar que o afastamento da íntima convivência entre o público e o privado, o indivíduo e a cultura, expresso nas moradias das antigas cidades, é um símbolo que oculta mudanças muito expressivas nas relações humanas e artísticas. A perda do imaginário levou a danos, que somente agora começam a ser percebidos de forma evidente. Por exemplo, a tão comentada crise relacionada ao fluxo de público no teatro, cinema, literatura e outras artes, é uma dessas evidências. Obviamente, a crônica crise determinada pela falta de interesse do público pela produção cultural tem múltiplas e importantes raízes. São levantadas desde razões históricas até a quase nula sensibilidade das instituições governamentais em incentivar o acesso da população aos bens culturais; o peso da mídia e os interesses da indústria cultural, entre outras. Todas essas razões possuem sólidas justificativas. Mas uma razão pouco aventada, e, talvez a mais importante, seja a que explica que o desinteresse do público se deve ao fato de que talvez a produção cultural não esteja falando a mesma língua que ele, nem veiculando as imagens extraídas de um imaginário comum. Talvez a grande aventura da busca da individualidade iniciada no Renascimento tenha se exacerbado de tal forma a ponto de esquecermos da existência de um corpo social, de um imaginário cultural. Talvez o artista tenha renunciado a ser o meio de expressão das variadas experiências humanas para expressar a si próprio. Talvez o artista tenha aberto mão de expressar o mundo e a vida para expressar o próprio mundo e os próprios sentimentos. E talvez o próprio mundo e os próprios sentimentos não sejam assim tão importantes. Pelo menos para o público.

…o lógos na religião visa ao êxtase, ao contato com o divino, à teofania. Na arte, o êxtase é código de acesso ao logos, ao re-conhecimento da trajetória humana. Teatro é também uma forma de saber.

 
 

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